Como a Engenharia Civil Moldou o Mundo

A engenharia civil evoluiu de técnicas primitivas para o uso de ciência e materiais modernos, permitindo construções complexas.
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A história da humanidade não pode ser contada sem mencionar a evolução das construções. Antes mesmo de a palavra “engenheiro” existir, o ser humano já manipulava o meio ambiente para garantir proteção, acesso à água e rotas de comércio. A engenharia civil é, em sua essência, a aplicação prática da física e da matemática para resolver problemas geográficos e sociais.

O grande desafio, no entanto, é entender como saímos de estruturas rudimentares de pedra para edifícios que desafiam a gravidade. Muitos acreditam que a engenharia moderna nasceu com a tecnologia computacional, mas os princípios de resistência dos materiais foram forjados há milênios, em canteiros de obras que não contavam com eletricidade, mas com uma observação científica rigorosa.

Neste artigo, você percorrerá pelas inovações que permitiram o surgimento das cidades e como cada descoberta (do concreto romano ao aço industrial) alterou o curso da nossa espécie. Prepare-se para compreender a engenharia não apenas como uma profissão, mas como a espinha dorsal da civilização.

antes e depois na engenharia
evolução das construções de grande porte

A origem da palavra

A palavra engenheiro deriva do latim ingenium, que significa “talento”, “habilidade natural” ou “inteligência”, e ingeniare, que significa “inventar” ou “criar”. Inicialmente, um engenheiro era aquele que criava engenhos de guerra (catapultas, fortificações, pontes móveis para tropas e máquinas de cerco), já a palavra civil (civilis, está ligada a “cidadão”).

Raízes antigas: As fundações da engenharia civil

Desde que o homem começou a se organizar em sociedade, as construções se tornaram uma necessidade, os humanos passaram a construir seus próprios abrigos utilizando os elementos naturais ao seu redor. Posteriormente, as estruturas adquiriram características cada vez mais complexas, reflexo do desenvolvimento e aprimoramento das técnicas. Passou-se então a utilizar conhecimentos científicos nesta área, de forma que as dimensões e outros atributos de uma determinada obra podiam ser estimados. Novos materiais passaram a ser utilizados, sobretudo o aço e cimento, que possibilitaram o surgimento das grandes estruturas que hoje compõem o cenário do mundo moderno.

O domínio dos materiais e a lógica estrutural

Os primeiros “engenheiros” precisaram entender as propriedades físicas dos materiais disponíveis localmente. Dependendo da geografia, utilizava-se:

  • Adobe e tijolos de barro: Comuns em regiões áridas, ofereciam isolamento térmico, mas baixa resistência à tração.
  • Madeira: Excelente resistência à tração e flexão, mas perecível.
  • Pedra: Alta resistência à compressão, ideal para fundações e estruturas monumentais.

Foi no Neolítico que surgiu o conceito estrutural mais básico da construção: o sistema trilítico (dois pilares verticais suportando uma viga horizontal). Embora pareça simples, esse sistema exige o entendimento de que a carga da viga deve ser transferida verticalmente para o solo através dos pilares.

O monumento de Stonehenge, na Inglaterra, é um exemplo clássico de engenharia megalítica. O desafio não era apenas estrutural, mas logístico: transportar pedras de até 50 toneladas por quilômetros exigiu o desenvolvimento de alavancas, roldanas primitivas e gestão de “mão de obra”, antecipando o gerenciamento de projetos moderno.

Grandes civilizações e a engenharia da escala

Com o estabelecimento das primeiras cidades-estado, a engenharia civil enfrentou um novo desafio: a escala. Não se tratava mais apenas de abrigo, mas de monumentalidade, religião e controle do meio ambiente. Duas civilizações se destacaram por elevar a construção a um nível de ciência exata: os Egípcios e os Mesopotâmicos.

Egito Antigo: O domínio da geometria e logística

gize
pirâmides de Gizé

A engenharia egípcia é frequentemente lembrada pelas Pirâmides de Gizé, mas o verdadeiro feito técnico reside na logística e topografia. Para construir a Grande Pirâmide (c. 2560 a.C.), os engenheiros precisaram resolver problemas complexos que desafiariam até construtoras modernas:

  • Fundação e Nivelamento: A base da pirâmide é um quadrado quase perfeito, nivelado com uma precisão de poucos centímetros em toda a sua extensão. Eles utilizavam canais de água para garantir o nível do terreno.
  • O Triângulo 3-4-5: Sem teodolitos a laser, eles usavam cordas com nós espaçados para criar ângulos retos perfeitos (o princípio do Teorema de Pitágoras antes de Pitágoras), essencial para garantir que a estrutura não torcesse à medida que subia.
  • Transporte de Cargas: O deslocamento de blocos de calcário e granito (alguns pesando até 80 toneladas) exigiu o uso de rampas (retas ou helicoidais) e trenós lubrificados com água para reduzir o atrito na areia.

Imhotep: O Primeiro Engenheiro, chanceler do faraó Djoser, é considerado o primeiro engenheiro civil conhecido por nome na história. Ele projetou a Pirâmide de Degraus em Saqqara, inovando ao substituir tijolos de barro por pedra talhada, criando uma estrutura feita para durar eternamente.

Mesopotâmia: A gestão de recursos hídricos

Enquanto o Egito dispunha de pedra em abundância, a Mesopotâmia (atual Iraque) carecia desse material. Sua engenharia, portanto, focou-se em dois pilares: tijolos de barro cozido e engenharia hidráulica.

Situada entre os rios Tigre e Eufrates, a região sofria com inundações imprevisíveis. A sobrevivência dependia da capacidade dos engenheiros de controlar a água.

  • Sistemas de Irrigação: Eles construíram vastas redes de canais, diques e reservatórios. Isso exigia cálculos precisos de gradiente (inclinação) para garantir que a água fluísse na velocidade correta (rápida o suficiente para não estagnar, mas lenta o bastante para não erodir as margens de terra).
  • Zigurares: Grandes templos em forma de pirâmide escalonada, construídos com tijolos de barro seco ao sol e tijolos cozidos para resistir à intempérie. A engenharia aqui estava na criação de sistemas de drenagem internos para evitar que a umidade destruísse a estrutura de dentro para fora.

A era de ouro da engenharia romana: infraestrutura e durabilidade

Se os egípcios construíam para a morte (túmulos e templos), os romanos construíam para a vida civil e a expansão militar. A engenharia romana representa o ápice da antiguidade, focada em pragmatismo, padronização e durabilidade.

Diferente de seus predecessores, que dependiam de mão de obra massiva para mover pedras gigantes, os romanos focaram no desenvolvimento de novos materiais e formas estruturais que permitissem construir mais rápido, mais barato e em qualquer lugar do império.

O segredo químico: Concreto Romano

A maior contribuição de Roma para a engenharia civil foi o desenvolvimento de um tipo de concreto revolucionário. Enquanto o concreto moderno (Cimento Portland) tem uma vida útil estimada em cerca de 100 anos, estruturas romanas como o Panteão (quase 2.000 anos) permanecem intactas.

O segredo estava na pozolana (cinzas vulcânicas encontradas na região. Ao misturar cal, água, agregados e pozolana, ocorria uma reação química que permitia ao concreto endurecer até mesmo debaixo d’água (pega hidráulica).

  • Vantagem Tática: Permitiu a construção rápida de portos, pontes e fundações em solos úmidos.
  • Flexibilidade: Ao contrário da pedra cortada, o concreto podia ser moldado em formas complexas, viabilizando cúpulas e abóbadas.

O domínio do Arco e a distribuição de forças

Antes de Roma, as construções limitavam-se a vãos curtos devido à baixa resistência da pedra à tração (ela quebra se usada como uma viga horizontal muito longa). Os engenheiros romanos aperfeiçoaram o arco de volta inteira.

Do ponto de vista da física, o arco é genial porque redireciona as forças:

  1. A carga superior (peso) não pressiona o centro para baixo (flexão).
  2. A força é distribuída lateralmente ao longo da curva do arco.
  3. A carga chega aos pilares laterais puramente como compressão, força à qual a pedra e o concreto resistem muito bem.

Este princípio permitiu a criação de aquedutos com múltiplos níveis e pontes que cruzavam rios largos, impossíveis com o sistema trilítico anterior.

Aquedutos e Estradas: A engenharia de precisão

A infraestrutura romana era uma maravilha da topografia.

  • Aquedutos: Transportavam água por dezenas de quilômetros usando apenas a gravidade. A precisão era cirúrgica: o gradiente (inclinação) médio era de cerca de 34 cm por quilômetro. Se fosse muito íngreme, a água erodiria o canal; se muito plano, a água estagnaria.
  • Estradas: Não eram simples caminhos de terra. Eram escavadas e preenchidas em camadas (estratigrafia):
    1. Statumen: Fundação de pedras grandes.
    2. Rudus: Cascalho e concreto.
    3. Nucleus: Areia e cascalho fino.
    4. Summum Dorsum: O pavimento final de pedras poligonais intertravadas, abauladas no centro para drenar a água da chuva.

Idade Média e o Gótico: o desafio das alturas e da luz

Durante muito tempo, o período medieval foi injustamente rotulado como “Idade das Trevas”. Na engenharia civil, contudo, foi uma era de audácia estrutural sem precedentes. Enquanto a engenharia romana focava na massa e na robustez horizontal, os engenheiros medievais obcecaram-se pela verticalidade e desmaterialização das paredes.

O desafio era teológico e técnico: como construir igrejas cada vez mais altas, que tocassem o céu, e substituir paredes de pedra por vitrais, sem que o teto desabasse? A resposta foi uma revolução na distribuição de cargas.

A transição do Românico para o Gótico

No estilo Românico (predecessor), as paredes precisavam ser espessas e as janelas pequenas, pois eram as próprias paredes que sustentavam o peso imenso das abóbadas de pedra.

A engenharia gótica quebrou esse paradigma ao criar um esqueleto estrutural. A carga deixou de ser suportada pela parede contínua e passou a ser canalizada por pontos específicos. Isso foi possível graças a três inovações que trabalham em conjunto:

  1. Arco Ogival: Diferente do arco romano (semicircular), o arco ogival direciona as forças mais para baixo (verticalmente) do que para os lados (lateralmente). Isso reduz o empuxo lateral e permite alcançar maiores alturas.
  2. Abóbada de Nervuras: Em vez de um teto de concreto maciço, os engenheiros criaram “costelas” de pedra cruzadas. Estas nervuras suportavam o peso do teto e o concentravam nos pilares, aliviando o preenchimento entre elas.
  3. Arcobotante: Esta é a assinatura da engenharia gótica. Como as abóbadas ainda empurravam as paredes para fora, os engenheiros criaram “meios-arcos” externos. Eles capturam o empuxo lateral da nave principal e o transferem para contrafortes externos massivos fincados no chão.

O edifício como esqueleto

Ao utilizar o arcobotante, a parede da igreja perdeu sua função estrutural de suporte de carga (tornando-se autoportante ou apenas vedação). Isso permitiu que os engenheiros “rasgassem” as paredes e instalassem imensos vitrais.

igreja
Comparação estrutural entre arquitetura românica e gótica

A revolução industrial: o nascimento da engenharia moderna

Até o século XVIII, a engenharia civil dependia de materiais encontrados na natureza (pedra, madeira, argila). A Revolução Industrial mudou as regras do jogo ao introduzir materiais manufaturados com propriedades mecânicas controladas.

Foi o momento em que a engenharia deixou de ser uma arte baseada na experiência acumulada (empirismo) para se tornar uma ciência baseada no cálculo matemático (análise estrutural).

A transição dos materiais: do Ferro Fundido ao Aço

A grande limitação das construções antigas era a tração. Pedras são ótimas para serem comprimidas (empilhadas), mas péssimas para serem esticadas. A madeira resiste à tração, mas apodrece e queima. A solução veio com a metalurgia.

  1. Ferro Fundido: O primeiro salto. Em 1779, foi construída a Iron Bridge na Inglaterra, a primeira ponte metálica do mundo.
    • Curiosidade técnica: Como os engenheiros da época ainda pensavam como carpinteiros, as conexões da ponte foram feitas com encaixes do tipo “espiga e malhete” (rabos de andorinha), típicos de madeira, pois ainda não dominavam a tecnologia de rebites ou solda para metal.
  2. Ferro Forjado: Mais resistente à tração que o fundido, permitiu a criação de treliças e da Torre Eiffel (1889), que provou ser possível construir estruturas altíssimas e leves, onde o vento passa através da estrutura, reduzindo a carga aerodinâmica.
  3. Aço: A revolução definitiva. Com o processo de Bessemer (meados do séc. XIX), a produção de aço em massa tornou-se barata. O aço é uma liga de ferro e carbono que oferece alta resistência tanto à compressão quanto à tração, além de ser dúctil (deforma antes de quebrar, avisando o colapso).

A formalização acadêmica: o fim do “Mestre de Obras”

Antes dessa era, quem construía eram os “Mestres Construtores”, que aprendiam o ofício de pai para filho. Com a complexidade das novas pontes ferroviárias e túneis, a intuição não era mais suficiente; era necessário cálculo diferencial e integral.

  • O nascimento da Academia: A França liderou essa mudança com a criação da École Nationale des Ponts et Chaussées (Escola Nacional de Pontes e Estradas) em 1747.
  • A Teoria das Vigas: Matemáticos e engenheiros como Euler e Bernoulli desenvolveram fórmulas que permitiam prever exatamente quanto uma viga de aço se curvaria sob o peso de um trem antes mesmo de ela ser fabricada. Isso reduziu drasticamente os coeficientes de segurança exagerados (o “superdimensionamento”), economizando dinheiro e material.

O século XX e a explosão do concreto armado

Se o século XIX foi a era do aço, o século XX pertenceu ao concreto armado. Embora o concreto tenha sido redescoberto em meados de 1800 (o jardineiro Joseph Monier patenteou vasos de flores com malha de ferro em 1867), foi no século XX que a engenharia civil dominou a ciência por trás desse material compósito, redefinindo a paisagem urbana global.

A coincidência mágica da engenharia

O concreto armado funciona devido a uma propriedade física fortuita e crucial: o coeficiente de dilatação térmica.

O aço e o concreto dilatam e contraem com o calor a taxas quase idênticas.

  • Por que isso importa? Se eles tivessem taxas diferentes, em um dia quente de verão, o aço dentro da viga expandiria mais que o concreto, trincando a estrutura de dentro para fora (delaminação). Essa compatibilidade química e física permitiu a criação de estruturas monolíticas imensas.

A evolução técnica: Do Armado ao Protendido

Enquanto o concreto armado comum resolve o problema da tração, ele ainda racha sob carga (fissuração controlada). A engenharia do século XX deu um salto grande com Eugène Freyssinet e a invenção do Concreto Protendido.

Imagine que você precisa carregar uma fila de livros horizontalmente. Para que eles não caiam, você precisa apertar as extremidades com força. O concreto protendido usa essa mesma lógica:

  1. Cabos de aço de alta resistência são esticados dentro da forma.
  2. O concreto é despejado e endurece.
  3. Os cabos são soltos, tentando voltar ao tamanho original, comprimindo vigorosamente o concreto. Isso cria uma estrutura que já “nasce” comprimida, permitindo vencer vãos muito maiores com vigas muito mais finas.

A verticalização e os Arranha-céus

No início do século XX, os arranha-céus como o Empire State eram puramente esqueletos de aço. No entanto, com o desenvolvimento de aditivos químicos (superplastificantes) e concretos de alto desempenho, o concreto tornou-se viável para grandes alturas.

A engenharia civil enfrentou então dois novos inimigos invisíveis:

  • Ação do Vento: Em edifícios muito altos, o vento exerce mais força que o próprio peso do prédio. Engenheiros desenvolveram sistemas de amortecedores de massa sintonizada (pêndulos gigantes internos) para neutralizar a oscilação.
  • Fluência: O concreto, sob alta pressão constante, tende a encurtar ligeiramente ao longo dos anos. Os cálculos estruturais precisaram passar a considerar o tempo para evitar que tubulações e elevadores falhassem décadas depois da inauguração.
armado vs protendido
diferença entre concreto armado simples e concreto protendido com cabos de aço

A engenharia civil na era digital e sustentável

Chegamos ao momento presente, onde a Engenharia Civil passa por sua maior transformação desde a Revolução Industrial: a Indústria 4.0. Diferente das eras anteriores, focadas em “como construir mais alto e mais forte”, o século XXI foca em “como construir de forma mais inteligente e com menor impacto”.

O canteiro de obras, historicamente um ambiente analógico e de baixa produtividade, está sendo digitalizado. A marreta e o teodolito agora dividem espaço com drones e scanners a laser.

Do desenho à informação: a revolução BIM

Durante décadas, o padrão da engenharia foi o CAD (Computer Aided Design). O CAD, no entanto, é apenas uma “prancheta digital”, ele desenha linhas que representam paredes. O computador não sabe que aquelas linhas são uma parede; para ele, são apenas vetores.

A grande mudança de paradigma é o BIM (Building Information Modeling). No BIM, não desenhamos linhas; modelamos objetos inteligentes.

  • Parametrização: Se você insere uma parede no software, ele sabe as propriedades térmicas, o custo do material, o peso e a resistência acústica daquela parede.
  • Multidimensionalidade: O BIM vai além do 3D:
    • Tempo (Cronograma visual da obra).
    • Custos (Orçamento em tempo real).
    • Sustentabilidade (Análise energética).
    • Manutenção (Gestão do ciclo de vida do edifício).

A maior vantagem técnica do BIM é a detecção de interferências. Antes de colocar um único tijolo, o software cruza o projeto estrutural com o hidráulico e o elétrico, alertando se uma viga está atravessando um duto de ar-condicionado. Isso elimina o famoso “quebra-quebra” na obra, economizando milhões em retrabalho.

O desafio verde: descarbonizando o concreto

A indústria do cimento é responsável por cerca de 8% das emissões globais de CO2. Se fosse um país, seria o terceiro maior poluidor do mundo. O grande desafio da engenharia moderna é manter o desenvolvimento urbano reduzindo essa pegada ecológica.

Duas inovações se destacam nesse cenário:

  1. Concreto de Autocura (Bioconcreto): Engenheiros desenvolveram um concreto misturado com bactérias (como o gênero Bacillus) e cápsulas de lactato de cálcio. Quando o concreto racha e a água entra, as bactérias “acordam”, alimentam-se do lactato e excretam calcário, fechando a fissura automaticamente. Isso aumenta drasticamente a vida útil das estruturas e reduz custos de manutenção.
  2. Madeira Engenheirada: O retorno da madeira, mas com alta tecnologia. Ao colar camadas de madeira cruzadas sob alta pressão, cria-se um material com resistência comparável ao concreto e aço, mas que sequestra carbono em vez de emitir. Já existem arranha-céus de madeira com mais de 80 metros de altura.

Patologia das construções históricas: por que o Panteão ainda está de pé?

Frequentemente, a engenharia moderna é vista como superior em tudo, mas existe um paradoxo desconfortável: o Panteão de Roma (125 d.C.) permanece intacto e funcional, enquanto viadutos modernos de concreto armado precisam de reformas estruturais severas após 50 anos.

Isso não é apenas “eles construíam melhor antigamente”. É uma diferença fundamental de química de materiais e filosofia de projeto.

O ponto fraco do Concreto Moderno

A principal razão pela qual as estruturas modernas têm vida útil limitada é, ironicamente, o mesmo material que permite sua existência: o aço.

O concreto armado é um casamento imperfeito. O concreto é alcalino (pH alto), o que protege o aço da ferrugem (passivação). No entanto, com o tempo, o CO2 da atmosfera penetra nos poros do concreto (Carbonatação), baixando o pH.

  1. Quando a proteção ácida acaba, o aço oxida.
  2. A ferrugem ocupa até 4x mais volume que o ferro original.
  3. Essa expansão interna cria uma pressão descomunal que quebra o concreto de dentro para fora.

As estruturas romanas, por serem feitas apenas de massa (concreto não-armado) trabalhando à compressão, não possuem esse “relógio-bomba” interno.

A descoberta de 2023: Os clastos de cal

Até recentemente, cientistas acreditavam que a durabilidade romana vinha apenas da pozolana vulcânica. Porém, em 2023, pesquisadores do MIT descobriram o verdadeiro segredo ao analisar pedaços brancos no concreto antigo, antes considerados “erro de mistura” (clastos de cal).

A análise revelou que os romanos usavam mistura a quente (com cal viva), o que criava uma arquitetura química instável nesses clastos.

  • O mecanismo: Quando uma fissura se abre e a água entra, ela dissolve o cálcio desses clastos. Essa solução rica em cálcio recristaliza rapidamente, preenchendo a fissura. É um sistema de autorreparo milenar que a engenharia moderna está tentando replicar agora.

Tabela comparativa: Engenharia Antiga vs. Moderna

CaracterísticaEngenharia Antiga (Ex: Romana)Engenharia Moderna (Ex: Séc. XX)
Princípio EstruturalPeso e Compressão (Arcos/Muros)Leveza e Flexão (Vigas/Treliças)
Material PrincipalPedra, Tijolo, Concreto SimplesConcreto Armado, Aço, Vidro
Coeficiente de SegurançaAltíssimo (superdimensionado por ignorância ou garantia)Otimizado (calculado no limite da eficiência e custo)
Ponto de FalhaErosão externa, sismosCorrosão da armadura, fadiga do material
FilosofiaDurabilidade EternaVida Útil de Projeto (geralmente 50-100 anos)

Profissão

A profissão só foi reconhecida a partir da Revolução Industrial, quando, em 1768, o inglês John Smeaton se autodenominou Engenheiro Civil para diferenciar-se dos engenheiros militares – que na época eram os responsáveis por grandes construções, voltadas, principalmente, para o combate de guerras.

Anos depois, fundou a Sociedade dos Engenheiros Civis, com o propósito de reunir profissionais para desenvolver grandes obras. Em 1814 o termo engenharia foi dicionarizado em língua portuguesa.

Existem na maioria dos países associações de engenheiros civis que buscam a troca de conhecimento e a divulgação e aperfeiçoamento de técnicas. Para exercer a profissão, o engenheiro civil precisa obter certificação e licença formal, tipicamente fornecida por estas associações. No Brasil, a certificação é fornecida pelo Conselho Federal de Engenharia e Agronomia, (CONFEA) e (CREA) através de seus conselhos regionais.

O CONFEA elenca as atribuições do engenheiro civil da seguinte maneira:

  • Aproveitamento e utilização de recursos naturais;
  • Construção e averiguação de edificações, equipamentos de segurança, urbanos, rurais e regionais e de serviços;
  • Análise de questões artístico-culturais e técnicos;
  • Planejamento e fornecimento de meios de locomoção e de comunicação durante a execução da obra;
  • Instalação de mecanismos de sustentação do empreendimento como massas de água, cursos de água, extensões terrestres e acesso a todas as partes da edificação;
  • Planejar e desenvolver toda a estrutura industrial e, em alguns casos, agropecuário.

Não sendo deixadas de lado e nem sendo desvalorizadas, outras atividades também ocupam a lista de afazeres de um engenheiro civil. Como o CONFEA concretizou sua legislação definitiva em 2013, agregada a outros decretos determinados em 2005, a lista dessas atividades aumentou e o profissional também fica encarregado de algumas delas:

  • Desempenhar cargos, funções e comissões em organizações estatais;
  • Explorar recursos alternativos e naturais para o desenvolvimento da indústria e da agropecuária;
  • Estudar, projetar, analisar e avaliar técnicas e obras em andamento;
  • Planejar e projetar trabalhos em âmbito urbano, rural, de transportes e em outras regiões;
  • Coordenar atribuições em autarquias e instituições de economia mista ou privada.

O local de trabalho de um engenheiro varia conforme a especialidade escolhida, embora a maioria trabalhe em firmas de consultoria, que criam projetos e soluções para construção de determinada estrutura. Existem ainda muitas possibilidades no setor público, desde o âmbito municipal até federal, além da possibilidade de atuar em carreira militar ou no setor industrial. Tipicamente o engenheiro precisa visitar os locais de obra e trabalhar com diferentes equipes técnicas especializadas.

A engenharia civil, por sua própria natureza, é uma área na qual erros causam grandes consequências. Desta forma, o profissional deve desenvolver com o máximo de atenção para evitar erros atribuídos a omissões, falta de planejamento, erros durante o processo de construção e relacionados à qualidade dos componentes. Há a necessidade de avaliação cuidadosa do ambiente na qual determinada estrutura será instalada, a fim de garantir sua durabilidade a longo prazo. Um engenheiro precisa, ainda, ser capaz de aprender com erros anteriores relatados em outras obras, de forma que haja minimização dos riscos.

Símbolo da Engenharia Civil

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deusa minerva

Engrenagens, roldanas e materiais de medição são usados em diversos países como símbolo da engenharia civil, porém, nenhum deles é oficial.

No Brasil, a imagem da deusa Minerva, inserida em uma moldura em forma de engrenagem, é a mais usada pelas universidades e pelo Conselho Federal de Engenharia (CONFEA). A composição é inspirada nas características de Minerva, conhecida como a deusa da sabedoria, das artes e da estratégia de guerra, e representada como uma guerreira: com capacete na cabeça, escudo no braço e lança na mão.

Dia do Engenheiro Civil

No Brasil, 11 de dezembro é a data dedicada para homenagear estes profissionais. O Dia do Engenheiro surgiu com a promulgação do Decreto de Lei nº 23.569, de 11 de dezembro de 1933, que regulamenta e oficializa as profissões de Engenheiro, Arquiteto e Agrimensor no Brasil, e cria o CONFEA.

O futuro é construído sobre o passado

Desde pontes que conectam comunidades distantes até sistemas de saneamento que protegem a saúde pública, a engenharia civil desempenha um papel crucial em cada aspecto da vida cotidiana. Além disso, enfrenta os desafios do futuro, como a mudança climática e a urbanização crescente, com soluções inovadoras que promovem a sustentabilidade e o conforto. Portanto, a engenharia civil não é apenas uma profissão; é uma vocação que molda o mundo em que vivemos e pavimenta o caminho para um futuro mais seguro e próspero para todos.

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